De estranhos a conhecidos, parece que as pessoas simplesmente não conseguem deixar de fazer algum comentário negativo sobre as famílias que escolheram ter muitos filhos. Num mundo que se gaba de pôr abaixo os “muros” do preconceito, este ainda permanece de pé.

“Pensei que você fosse mais inteligente…”; “Agora chega, não é?” Estes são dois comentários que ouvi de amigos de infância que revi depois de muitos anos num velório ao qual fui recentemente. Eles ficaram perplexos quando lhes disse que tenho seis filhos.  

Como sabem muito bem alguns leitores de The Catholic Thing, alguns com prole duas vezes maior do que a minha, estes estão entre os comentários mais educados que pais de famílias numerosas escutam de pessoas incrédulas, jocosas ou muitas vezes hostis. Nesse encontro recente, ao menos os dois não deram um golpe baixo, como ocorre no caso das reações mais irritantes. A menos pessoal deste gênero é: “Vocês não têm TV em casa?”, dita com muita frequência.   

Nossa sociedade já não tolera comentários depreciativos sobre a aparência ou a etnia de uma pessoa. Na maioria das vezes, não é considerado aceitável ridicularizar uma pessoa por causa de sua religião, embora a própria religião seja perseguida por intelectuais “iluminados” e por personalidades midiáticas. O anticatolicismo já foi apelidado de “o último preconceito aceitável”. Atos preconceituosos, porém (desde comentários depreciativos até a vandalização de imagens), são respondidos por legiões de defensores, institucionais e individuais, que ficarão de pé por sua fé. Ao menos os detratores não podem ser anticatólicos e sair completamente incólumes.

Do mesmo modo, hoje somos proibidos de comentar a “escolha de estilo de vida” de outra pessoa — ou ao menos algumas delas. O caixa do mercado não dirá nada ao cliente com inúmeros piercings e tatuagens, roupas rasgadas e cabelo roxo. As plataformas de rede social suspenderão a conta de um usuário que postar comentários negativos sobre determinada “escolha de estilo de vida”, ainda que a confissão pública dessa escolha fosse inimaginável há alguns anos.

Mas quando se trata da “escolha de estilo de vida” de ter uma família numerosa, desaparece a censura pessoal e social. Depois que o caixa do mercado deixa o punk passar, por que ele tem de me perguntar: “São todos seus?”, quando me vê junto com meus filhos? As plataformas de redes sociais exercem vigilância em defesa dos que são ridicularizados por ter famílias maiores? De estranhos a conhecidos, parece que as pessoas não conseguem deixar de fazer algum comentário sobre famílias numerosas. “Eles têm, ‘tipo’, seis filhos”, escutei um dentista sussurrar para sua nova assistente na semana passada, como se este fato tivesse alguma relação com o tratamento dentário do meu filho.

Às vezes até paroquianos bem-intencionados colaboram com a difamação das famílias numerosas [i]. Mais de uma vez após a Missa uma pessoa já levantou o dedo para contar na minha presença quantos filhos tenho, como se não pudesse compreender o que acabara de ver.

O pior de tudo, porém, são os insultos ocasionais que meus filhos adolescentes escutam de seus colegas sobre mim e minha esposa. Os comentários deles não podem ser repetidos para um público educado, embora seja fácil imaginar quais sejam.

Tais golpes medíocres recebidos de todos os lados me fizeram chegar a esta conclusão: a animosidade em relação às famílias numerosas é o último preconceito aceitável na América [ii].

Pais de famílias maiores sabem muito bem que são forasteiros numa sociedade que trata filhos como produtos, e não como o propósito da vida matrimonial. Na cultura da morte o que se espera são famílias pequenas. Afinal, hoje muitas pessoas são estimuladas a pensar o seguinte: Quem quer criar filhos pequenos durante anos a fio? Isto interferiria no tempo livre do pai e na carreira da mãe

E agora, que a ideologia climática atingiu um pico doentio, será que as famílias pequenas não se tornarão, além da norma, também uma exigência? Os especialistas em clima pregam que a redução do número de filhos é o caminho mais eficaz para diminuir as emissões de carbono. É muito curta a distância entre ridicularizar os pais que têm muitos filhos e pressioná-los para que não os tenham.

A cultura da morte e a ideologia climática têm sido bem-sucedidas em sua missão (e isto é um perigo): a escassez populacional ocorre em todo o mundo; por causa dela, governos na Ásia e na Europa pagam famílias para ter mais filhos. Com “mais” eles querem dizer um, dois ou no máximo três filhos, em vez de nenhum. Porém, tais esforços não são a afirmação do bem que são os filhos, mas a tentativa de evitar as consequências do colapso populacional. Nenhuma nação na Terra promove aquilo que outrora era entendido como uma “típica família católica irlandesa”.   

Num mundo assim, as famílias maiores continuarão sendo o alvo principal. Elas são sinais de contradição: testemunhos de vida, amor e sacrifício numa cultura que escolheu a morte, a apatia e o egoísmo. As reações por reflexo quando alguém vê uma família numerosa são sinais claros de uma consciência culpada.

Como hoje o amor a Deus é o principal motivo para os pais católicos decidirem ter muitos filhos, vemos que é realizada novamente, em nossa era secularizada e pós-cristã, a escolha que Deus apresentou a Israel:

Eu chamo hoje por testemunhas o céu e a terra, em como vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua posteridade, amando o Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz, permanecendo unido a ele, porque nisso está a tua vida (Dt 30, 19-20).

Talvez nunca venha a existir o equivalente à Catholic League [iii] para defender as famílias numerosas da discriminação. Nenhum problema com isso; não estamos à procura de protetores terrenos. O fato de as famílias maiores serem o último preconceito aceitável diz mais sobre os perseguidores do que sobre os perseguidos, que sabem o que querem. “Porque se confiou a mim, hei de livrá-lo; e protegê-lo, pois meu nome ele conhece” (Sl 90, 14).

Os pais de famílias numerosas podem se cansar das alfinetadas e zombarias, mas as suportam com paciência porque buscam a aprovação de Deus, não da sociedade. Temos a promessa de Nosso Senhor de que a exclusão social leva à inclusão no Céu. Ironicamente, sendo a inclusão a vanguarda nos círculos iluminados de hoje, as famílias numerosas estão tomando o caminho mais difícil para o sucesso: “Bem-aventurados sois vós, quando vos insultarem, perseguirem e disserem falsamente toda a sorte de mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 11-12).

Notas

  1. O autor acrescenta, aqui, que tem ouvido “há anos, a cada mês, uma variação do comentário: You have your hands full”. Trata-se de um trocadilho: literalmente, a expressão diz que a pessoa está com as “mãos cheias”, como sinônimo de estar muito ocupado, a ponto de não ter tempo para mais nada. Omitimos esta breve frase na tradução pois, em português, a brincadeira perde o seu sentido (N.T.).
  2. Por América, o autor certamente alude aos Estados Unidos; mas mutatis mutandis as coisas não são muito diferentes nesta porção meridional do Novo Mundo (N.T.).
  3. A Catholic League for Religious and Civil Rights (lit. “Liga Católica pelos Direitos Religiosos e Civis”), ou simplesmente Catholic League, é uma organização norte-americana criada para defender os direitos dos católicos de participar da vida pública nos EUA sem ser difamados ou discriminados (N.T.)

Fonte: padrepauloricardo.org

David G. Bonagura Jr.
Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Categorias: Formação