Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus – C – Nm 6,22-27; Sl 66; Gl 4,4-7; Lc 2,16-21

Dizíamos que há duas passagens nesse Evangelho que fala sobre Maria de maneira explícita, a primeira é Lc 2,16, meditada na noite passada; a segunda é a seguinte: “Maria, contudo, conservava todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19). Esse versículo é princípio de piedade filial para todos aqueles que querem progredir na vida espiritual: na escola de Maria aprendemos o silêncio, a meditação e o silêncio. Descubramos a história da piedade mariana e vejamos como é importante seguir pela senda da história da Igreja em seu amor por Maria, para que cada um de nós possa correr a própria história com amor e resolução.

Após a Ave-Maria, em sua primeira parte composta a partir dos textos de Lc 1,28. 42, a oração mais antiga a Maria é “Sub tuum praesidium” (À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus…), que remonta ao século III. A mais bela composição mariana da Igreja bizantina, o “akathistos”, que significa “cantado de pé”, é do século V, e nos fala do mistério da encarnação a partir da perspectiva de Maria. Especialmente a partir do século VIII são introduzidas muitas festas marianas tanto no Oriente quanto no Ocidente. Em torno do ano 800 se realiza a tradução latina do Akathistos, a qual foi popularizada. O hino “Ave, maris stella”, que exalta a maternidade virginal de Maria é, provavelmente, uma composição do século VIII.

Um dos primeiros edifícios cristãos em honra de Santa Maria foi a “Igreja de Santa Maria”, feita pelo patriarca de Alexandria, Teona (+307). Flavio Cresconio, poeta africano do século VI, elevou a seguinte oração à Maria: “E tu, o Geradora de Deus, estende a tua mão sobre mim e ajuda-me; tenho um grande sofrimento e estendo meus braços débeis para suportar os pesos”. Santo Ildefonso de Toledo, no seu “Tratado sobre a Virgindade de Maria”, reza: “Eu te peço e te suplico, Santa Virgem Maria, para que eu acolha Jesus através do mesmo Espírito que operou em ti e do qual gerastes Jesus”.

Já no começo do século VII era rezada a primeira parte da Ave-Maria, aquela que vem de Lc 1,28 e 42 como espécie de Saltério dos Leigos, os quais, aos não saberem ler, imitavam os monges rezando por vezes 150 Pai-Nossos, por vezes 150 Saudações Angélicas; nos séculos IX e X acrescentou-se o nome de Jesus no final dessa primeira parte da oração: “Bendito fruto do teu ventre, Jesus”. Essa devoção se consolidou especialmente a partir do século XIII, bem unida à história de São Domingos de Gusmão e ao combate à heresia dos cátaros. Esses hereges afirmavam a existência de dois deuses: um mal, o criador da matéria, e um bom, o criador do espírito. Os cátaros ou albigenses eram particularmente endurecidos em seus erros e, portanto, muito difíceis de se converterem.

São Domingos de Gusmão (1170-1121), preocupado com essa heresia e procurando combatê-la por todos os meios, refugiou-se em oração por três dias. No último dia de oração intensa, apareceu-lhe Nossa Senhora acompanhada de três anjos. A Mãe de Deus mostrou-lhe então o seu Saltério como arma poderosa para vencer a heresia: “Querido Domingos – perguntou-lhe Nossa Senhora – você sabe qual é a arma que a Santíssima Trindade quer usar para mudar o mundo? Quero que saiba que neste tipo de guerra a arma sempre foi o Saltério Angélico – isto é, as palavras do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora na Anunciação –, que é a pedra fundamental do Novo Testamento. Portanto, se você quer converter estas almas endurecidas e ganhá-las para Deus, difunda o meu saltério”. Nessa visão, Maria Santíssima teria mostrado o Terço a São Domingos que, a partir daquele momento ficou conhecido como o “Saltério de Nossa Senhora”. Rezado aquele Terço por três vezes, os fiéis rezavam 150 saudações angélicas e, desta maneira, imitavam os monges que rezavam os 150 salmos.

Mais tarde, Nossa Senhora apareceu novamente ao Beato Alano de Rupe (1428-1475), também dominicano, e pediu-lhe para avivar a devoção ao Saltério mariano. Foi Alano quem criou as agrupações de cada 50 Ave-Marias como Mistérios Gozosos, Dolorosos e Gloriosos e acrescentou os Pai-Nossos no início de cada dezena. Estava, portanto, estruturado o Rosário tal como o conhecemos atualmente, com a exceção da segunda parte – “Santa Maria, Mãe de Deus…” – e dos Mistérios Luminosos acrescentados por São João Paulo II, em 2001. A segunda parte da Ave Maria foi introduzida em torno ao ano 1480.

Como rezar o Rosário ou parte dele, também chamado de Terço? Como Maria: conservando os fatos na memória e meditando no coração. Por vezes, as Ave-Marias serão música de fundo da meditação dos mistérios do Terço: anunciação do anjo a Nossa Senhora, visitação de Maria a Isabel, nascimento de Jesus etc. Outras vezes, bastará uma palavra da Ave-Maria para ir avivando em nós os desejos mais fervorosos de santidade. Enfim, mesmo se percebermos que não estamos rezando bem o Terço, não vamos desisitir, pois, como dizia alguém, o pior Terço é aquele que não se reza.

Padre Françoá Costa
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